
Dedico estas linhas aos talentos que nascem e morrem sem serem reconhecidos.
Há muito tempo tenho me prometido, assim como ao meu irmão Vitorino, escrever em poucas linhas a história do Arcanjo, com todos os pros e os contras, os ditos e os não ditos. Mas os descaminhos desta vida louca me têm obstruído a inspiração e a vontade, e dorme em minha mente a lenda do Anjo Vingador, que um dia, com uma caneta e um pedaço de papel nas mãos declarou guerra aos políticos e aos hipócritas do Ipu.
O Arcanjo - nome artístico desenvolvido por Raimundo Alves de Araújo - nasceu de supetão, contra a minha vontade, num gesto de desespero e de decepção; decepção para comigo mesmo, decepção para com minha cidade, decepção para com minha gente, e decepção para com nossa classe política.
Eu nunca fui uma criança comum, desde pequeno tinha um discernimento e uma maturidade muito adiantados para alguém de minha idade. Ensimesmando, cabisbaixo e tímido, tendo o ego esmagado pelo convívio com meus 15 irmãos, vivia num mundo a parte, onde dialogava “consigo mesmo” e com os meus “amigos imaginários”: Conan, Super-Man, Homem Aranha, Hulk. O Ipu era naquela ocasião uma cidade refinada culturalmente, eu era influenciado por intelectuais e artistas como Valdemira Coelho (historiadora), Maria de Jesus Viana (artista plástica), Sabiá (poeta popular), Francisco Melo (historiador, poeta e músico), Antonio Ramos Ponte (escritor) e muitos outros, devo a estas pessoas parte de meus dotes artísticos e parte significativa de meu gosto pelo estudo, as artes e a cultura refinada. Havia na atmosfera cultural da cidade certa efervescência que me motivava a buscar a arte e a cultura como signo de distinção pessoal, como meio de afirmação de minhas potencialidades. Aos 10 anos de idade eu me achava um Rimbaud do Ipu, ou um Leonardo Da Vince e devia isso a meus mestres inspiradores. Nesta etapa de minha existência o Arcanjo ainda não havia se manifestado em meus pensamentos, e eu era, aos 14 anos, um jovem misógino com sérios problemas de relacionamento com as garotas de minha idade, assim como um artista angustiado, com profunda depressão e decepção diante do peso da existência. Eu odiava e amava ao Ipu, com sua vidinha medíocre e encantadoramente simples. A vida me pesava aos ombros e me fazia sentir que, tal como Castro Alves, Fagundes Varela, Augusto dos Anjos e outros poetas do passado, eu morreria jovem, talvez antes dos 30 anos de idade. Esta certeza me atemorizava o espírito, e perseguia vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e 365 dias por ano. Eu escrevia poesia, compunha canções, fazia cordel, pintava grafite com a certeza de que não teria tempo a perder; era poético morrer jovem, deixar um mundo que não me queria; um mundo que ria da dor e da revolta daquele jovem-velho de 16 anos de idade.
Muitas vezes eu sentei à calçada da velha casa de meu pai, e ouvia ao longe o som mudo e enlouquecedor do mundo; era o Rio de Janeiro, quem sabe São Paulo, Fortaleza ou mesmo Brasília, a me chamar pra viver aventuras loucas, pra botar a prova meu talento de poeta, ou meus traços de artista plástico talentoso e não-reconhecido, pra provar todos os venenos e, quem sabe, as suas delícias; quem sabe percorrer catedrais fantásticas, adentrar cabarés paradisíacos, me perder quem sabe em meio a uma selva de arranha-céus e a um mar de transeuntes.
Aos 18 anos eu já era considerado velho para os padrões do Ipu, todos os meus amigos haviam partido pra vida, todas as minhas paqueras e pretendentes haviam casado, todas as pessoas me olhavam como um “peso” aos meus pais, e a cidade queria me ver bem longe de suas ruas, de suas moças, de seus lugares de diversão e alegria. “-Vai simbora rapaz, o que cê inda faz nesta terra? Vai fazer tua vida no Rio de Janeiro, que eu num poço te sustentar mais não!”, disse meu pai, com olhos tristes, numa manhã de inverno, e eu chorei, pois vi que a minha hora de partir havia chegado. O Rio de Janeiro me esperava, com sua utopia, sua maresia, sua lenda, e suas miragens. Enchi a cara de vinho barato, arrumei minhas trouxas e comprei a passagem para uma viagem que iniciaria pouco mais de um mês depois. Eu nunca vou esquecer os olhos de minha mãe no dia de minha partida; ela não teve forças pra vir se despedir de mim. Chorou sozinha, trancada num quarto escuro, como uma criança. Meu pai fingia não chorar, pois era “cabra-macho”, e “homem não chora”, por isso dizia que as lágrimas eram por causa de “um cisco que lhe caiu no olho”. E às 10 horas da manhã La vinha a velha Itapemirim, cortando a serra, cuspindo fumaça e levantando poeira; a mesma velha Itapemirim que havia levado meus irmãos, meus primos e meus amigos lá estava pra vir me buscar, e eu que tanto sonhei com aquilo, agora com um nó na garganta, sufocava minha voz, enchia meus olhos de lágrimas, e eu via a minha vida passar por mim, com a pressa de Boeing 747 . “-Vai onibu véi, leva os iludido e trás os desenganado”, disse um velho senhor, erguendo o chapéu e saudando o veículo. A poeira da estrada cobria tudo, meus pensamentos, meus sonhos, minhas esperanças. Eu queria ir embora e ficar; queria chorar e sorrir. E no horizonte distante o velho ônibus carregado de gente, como gado, ofertada aos bares, restaurantes e portarias do Rio, e entre elas um garoto sem sonhos, sem vida e sem esperanças, que queria viver e morrer no Ipu, e um dia havia sonhado que era artista: “Como eu te detesto velha Sodoma invicta, Babilônia de meus amores!”. Em meu âmago a dor de partir e ficar arrastou minha alegria de viver, e em pouco tempo eu percorria a Avenida Nossa Senhora de Copacabana como um zumbi, procurando por algum motivo para lutar, para acreditar na vida, pra continuar caminhado, e via nas vidraças os rostos bonitos das noivas de Copacabana como um pressagia do fim. Sentia-me uma lebre em meio a uma jaula de leões, ou uma andorinha que se perdeu e não sabia voltar pra casa. Muitas noites eu vaguei, procurando emprego, procurando um amigo, procurando um motivo pra acreditar, e via os rostos das meretrizes, dos garçons e dos ladrões como uma legião de demônios saídos do apocalipse de São João. Eu, que amava a vida, sem minha gente, sem meus irmãos, sem meus amigos, desejei a morte: “se tu vir me encontrar nesta noite, oh, bela dama dos poetas, dos notívagos e dos namorados, que seja rápida e indolor como os acidentes aéreos! Que seja breve, como o amanhecer! Que seja clara e certeira, como mordida de cobra cascavel!. Que seja intenso, como o amor das virgens! Ó ti, bela dama, de quem todos fogem, se vieres me encontrar nesta noite, entre sem bater em minha casa, e me deixe ao menos um instante para pensar em minha terra querida, minha Ipu distante, para onde eu queria ir ao menos em pensamento, percorrer tuas ruas, adentrar tuas matas, caminhar por tuas praças! Morrer de tristeza e de contentamento nesta noite, donzela impura, meretriz virginal, provar do meu e do fel do mundo, e não deixar pegadas nem aos amigos ou aos inimigos!”.
Continua...
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