
Publicado no Jornal Ipu Grande, nº 36.
Após dar muito murro em ponta de faca eu estava cansado de viver, de andar à toa por aquele mundo sem moral, sentia-me uma lebre em meio a uma matilha de cães furiosos! Eu podia morrer a qualquer momento, atravessando uma rua, atropelado por um automóvel, assassinado por um ladrão, ou mesmo pela polícia, ou de tristeza, como estava acontecendo, e a sociedade a minha volta não dava a mínima para isso! A prova de que nós pouco valemos naquele lugar monstruoso eu obtive certa feita, quando um carro atropelou um cão de raça de uma Madame; ela, aos berros gritava: “-Ai meu Deus, minha cadelinha!!!”, olhando para mim e para outros “conterrâneos” que ficaram observando e disse: “-Mais antes fosse o diabo de um paraíba desses do que o meu amorzinho!!!”). Vez ou outra encontrava um “conterrâneo”, um homem cuja vida havia sido partida ao meio pela migração; estas pessoas carregavam uma ferida no peito, viviam mastigando lembranças doces de sua infância, e sonhando com a “namoradinha virgem” que eles haviam deixado para trás. Eram homens de trinta ou quarenta anos, mas pareciam presos nas questões existenciais mais básicas da adolescência. “Ai, como eu amo aquela mulher, Raimundo! Você a viu no Ipu? Ela é viva, é morta? Já casou?”, diziam-me com ar contrariado. Ficar no Rio, eu não queria, pois não havia nada naquele lugar que me animasse a viver e a lutar; ali tudo era sem vida, sem cor, triste, como um cemitério. Ser um pária, alguém discriminado por seu sotaque, sua origem, sua cultura, sua “raça” e seus costumes arrasou meu equilíbrio emocional e me fez ver a vida por outra perspectiva.
Desistindo do sonho da cidade grande, eu havia desistido mesmo de viver; mas eis que minha família, no Ipu, conseguiu para mim um meio honesto de ganhar a vida: trabalhar como doceiro na fábrica de cocadas e alfenins de meu irmão Manoel (o Ipu nada teria a oferecer a seu maior e melhor artista, a não ser fazer doces e viver uma vida sem contentamento!). Era julho ou agosto de um ano que já não me recordo e meu coração voltou a ter esperança: eu voltaria ao Ipu, minha terra querida, a mesma terra que eu havia deixado e jurado nunca mais voltar: “Ó velha Ipu antiga, miragem da colina, como tu és bela, meretriz virginal, donzela estúpida, Babilônia de vícios vista de longe, como um sonho impossível, um degredo eterno, um tormento inescapável, um beijo de cobra, um veneno de virgem; paraíso dos dementes, purgatórios dos desiludidos e inferno dos que se vão, sem destino, a mercê da vida”. Eu havia voltado com a constatação de que o mundo era uma Ipu imensa, para onde eu fosse, carregaria comigo meu lugar maldito e bendito como prisão para minha alma. Mas naquela noite, a vida era bela e eu queria rever meu lugar. Estava feliz por te rever, favela de ricos, igreja de tolos, tumba de vivos. Como era belo o luar, o vento, o céu, as estrelas, a noite, a brisa e o infinito visto através da janela apertada do ônibus. Era julho e eu queria viver, respirar o impossível, acertar contas com o passado, compor canções de amor e de ninar, escrever poemas que falassem da imensa dor humana, pintar telas que mostrassem que nós, os ipuenses, éramos ricos em cultura, belos em valores, artistas de gênio universal, encontrar meus amigos e meus inimigos! Beber cerveja com os amigos e com os inimigos, acertar contas! Dentro de mim, nascia um fogo incandescente que primava por justiça e liberdade: era o fogo do Anjo da vingança, o arcanjo da dor e da impiedade! Morrer e viver, em ti, velha Ipu estúpida, voltou a assombrar meus pensamentos de poeta errante! Ó Anjo de Deus e do Diabo, Arcanjo sem rosto e sem fé, eu te invoco nesta noite tempestuosa para lutar uma batalha sem fim, em prol dos vivos e dos mortos! Vem de dentro da noite medonha, assombrando os sonhos dos moradores da Serra e do sertão, dos paisanos e dos moto-táxis; dos vendilhões e dos embriagados! Vem, travar no Ipu uma batalha perdida contra as forças das trevas da ignorância! Vem, assombração medonha, arauto dos homens e mulheres sem voz do Ipu! Bate as tuas asas de gavião sobre os abismos da ignorância e da inércia sem fim! Ó anjo da dor e da melancolia! Pássaro sem asas e sem pudores morais! Arauto da desilusão redentora! (Ó tu que tens a coragem dos desenganados, e o desprendimento dos moribundos!) Volta, ó anjo medonho da melancolia! Volta, ó pássaro sem asas! Volta, ó poeta do impossível! Vem de onde vieres, trazendo na alma a força das erupções vulcânicas e no peito a saudade dos amores impossíveis! Quantas vezes te revi em sonhos, ó maldita assombração medonha chamada Ipu! Besta-fera dos abismos do oceânico! Serpente do São Paulo! Donzela estúpida dos Inhamuns! Eu te amaldiçôo! Em tuas ruas me tens como prisioneiro! Cidade “féla-da-puta”! Eu, que tanto te odeio e que tanto te amo, por ti seria capaz de morrer e de matar! De desafiar o impossível! De remover montanhas e de travar em tuas ruas minha última batalha! Estou aqui, para erguer meu gládio diante de ti, para enfrentar-te numa luta final contra as forças das trevas e da ignorância. (Eu quero a glória de morrer varado por uma bala, como Gerardo Madeira! Sair corrido como Ramos Pontes ou enforcado, como o escravo Estevão). Para ilustrar o que senti, exponho este poema de minha autoria:
PRECE DO GUERREIRO SEM TÚMULO
Quando a poeira baixar
E o sangue coagular
Vasculhe os destroços da batalha;
Recolha meu corpo sem mortalha
E enterre-me.
Dê-me um túmulo!
Não me deixe a saciar a fome
Dos abutres, dos vermes e dos homens!
Enterre-me!
Chore ao meu ombro
Sobre a ferida
Da vida perdida.
Chore! Poderíamos ser felizes, minha princesa!
Não me deixe pros lobos do bosque
Pras moscas, sem vida!
Olhos abertos, sob um céu de estrelas,
Sem ver a beleza do infinito!
Grite! Grite alto ao céu,
Deixe o eco responder seu grito!
Grite! Quem sabe a morte
Seja um sossego;
Quem sabe a vida seja uma tormenta!
Grite! Quem sabe, possa eu ouvir seu grito!
Grite, nem que Deus (onde quer que esteja)
Já nem se importe!
Só não me deixe ao relento
No vento frio da noite,...
Sob um céu de estrelas,
Perdidas, de mil anos!
Saia, e leve minha espada!
Limpe-lhe o sangue das batalhas.
Saia sem saber pra onde!
Saia, sem olhar pra trás!
Saia, minha princesa! Seríamos felizes!
Leve minha espada
E entregue-a a meu filho
Quando ele for homem.
Para que possa continuar a batalha
De seu pai...
Sob um céu de estrelas...
Sobre um chão de sangue...
Sem ver a beleza do infinito.
Ao som do eco ensurdecedor
De seu próprio grito!
Debaixo de um céu de estrelas,
Perdidas, de mil anos.
Grite uma vez mais!... Por mim, e por meu pai:
Grite: Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!
Raimundo Arcanjo, algum dia, antes do fim do mundo (Continua...)
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